2006-02-17

 

Hipermetropia Teológica

O mais irritante deste VPV assumidamente anti-islâmico, é a hipermetropia da sua visão religiosa. Não é só o Islão que é “desde a origem militar e expansionista”. Todas as três religiões que descendem de Zaratustra o são – esse sim foi o que cometeu o pecado original com a infeliz ideia do Deus do fogo fundamentado por uma dicotomia entre o bem e o mal. Judeus, Cristãos e Muçulmanos são todos primos que partilham uma teologia comum de superioridade baseada numa aliança especial com o seu Deus, mas que infelizmente a usam uns contra os outros. Em baixo estão algumas passagens da Bíblia, muito utilizadas para mostrar “the violence inherent in the system”, para parafrasear mais uma vez os Python e o Holy Grail.

Naturalmente concordo com VPV que o Ocidente tem que assumir e salvaguardar os seus valores. Mas a nossa liberdade de expressão e respeito pela diferença não tiveram a sua génese no Judaismo ou no Cristianismo, mas antes no renascimento de ideias pré-Zaratustra e na descoberta do racionalismo empírico e agnóstico. É verdade que o Cristianismo actual, pelo menos o Católico, absorveu estes ideais humanistas e universalistas por os rever na mensagem de Cristo. Mas essa revisão não foi de todo um processo instantâneo nem óbvio, como todos sabemos. No caso do Judaismo, como vários pensadores Judeus o têm dito, de certeza que pelo menos por trás do Zionismo não está uma filosofia humanista e universalista (estará muito mais a teologia da passagem do Deuteronomio 6 em baixo)

Moisés ficou furioso com os chefes da tropa, generais e capitães que voltavam da guerra, e lhes disse: «Por que vocês deixaram as mulheres com vida? Foram elas que, instigadas por Balaão, fizeram os filhos de Israel trair Javé no caso de Fegor: por causa delas houve uma praga sobre toda a comunidade de Javé. Agora, portanto, matem todas as crianças do sexo masculino e todas as mulheres que tiveram relações sexuais com homens. Deixem vivas apenas as meninas que não tiveram relações sexuais com homens, e elas pertencerão a vocês. Quanto a vocês, fiquem sete dias fora do acampamento. Aqueles que tiverem matado alguém ou tocado em cadáver, deverão purificar-se, junto com os prisioneiros, no terceiro e no sétimo dia. Purifiquem também toda roupa, objetos de couro ou de pêlo de cabra e todos os objetos de madeira». Numeros 31

Não se esqueça de Javé -Quando Javé seu Deus o introduzir na terra que jurou a seus antepassados Abraão, Isaac e Jacó, que daria a você, com cidades grandes e ricas que você não construiu, casas cheias de riquezas que você não encheu, poços abertos que você não cavou, vinhas e olivais que você não plantou; quando você comer e ficar satisfeito, preste atenção a si mesmo: não se esqueça de Javé, que tirou você do Egito, da casa da escravidão. É a Javé seu Deus que você temerá; sirva a ele e jure pelo seu nome. DEUTERONÔMIO 6

Pois o nosso Deus é um fogo devorador. CARTA AOS HEBREUS 12: 29

Vi, então, o céu aberto: apareceu um cavalo branco, e o seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro. Ele julga e combate com justiça. Seus olhos são chama de fogo. Sobre sua cabeça há muitos diademas. E ele traz escrito um nome que ninguém conhece, a não ser ele mesmo. Está vestido de um manto embebido em sangue, e é chamado pelo nome de Palavra de Deus. Os exércitos do céu o acompanham montados em cavalos brancos, com roupas de linho branco e brilhante. Da sua boca sai uma espada afiada para com ela ferir as nações. Ele é quem apascentará as nações com cetro de ferro. Ele é quem pisa o lagar do vinho do furor da ira de Deus, o Todo-poderoso. No manto e na coxa ele tem um nome escrito: «Rei dos reis e Senhor dos senhores.» APOCALIPSE DE SÃO JOÃO, 19:11



2006-02-15

 

Confessions of a bi-continental Libra

This Libra thing can be a total menace. I manage to live my life in two continents and hopping the political camps effortlessly. In almost everything I like seemingly opposing or distant things. Being a Libra is something like a quantum state: It is not so much that we sweep a spectrum of ideas, but that we adopt several disparate ones simultaneously, in an entanglement that is not necessarily incoherent (or so I think).

So, in the U.S., identity politics pushes me to the right, while in Europe, nationalism, racism and xenophobia push me to the left. Similarly, in Portugal the state-run medical system and the disgrace of its medical professionals lead me to the right, while in the U.S. the cost and depersonalization of managed care lead me to the left. On both sides, to the modern-day conservative, freedom means something like an entitlement to offend or to invade privacy. I can't get behind that. Meanwhile, the ragged left keeps on fighting for freedom from ourselves; still trapped to a self-hating notion that the World would be better without the Euro-American capitalist, rational culture. I can't get behind that.

So where is my Zen at? Some of it disentangles with Ursula Rucker, I rant but I am simultaneously humbled by those who can stay so neatly on one ideological spot. Check it out (in Real Media).



2006-02-11

 

Verniz Racional

Até aqui nunca tinha lido nada do Vasco Pulido Valente com o qual discordasse. Alguma vez tinha que ser a primeira, e aqui está ela:

“Tentar distinguir entre a guerra política e a guerra religiosa que o Islão move ao Ocidente não passa de um sofisma. Não se pode dividir o indivisível. A jihad deriva directamente do Corão. E o terrorismo, material e psicológico, assenta numa base doutrinal sólida, que Bin Laden, por exemplo, frequentemente invoca. Que espécie de responsabilidade leva, então, o Ocidente a não `provocar` um inimigo declarado? Não se tornou ela na pior e mais perigosa irresponsabilidade?”

Outra vez cá está o mesmo pensamento ilógico da bomba, versão vpv: o Islão move uma guerra ao ocidente porque a Jihad deriva directamente do Corão, ou porque Bin Laden tem uma doutrina religiosa sólida. Isto tem ponta lógica que se lhe pegue!!??

Então por haver grupos Cristãos que derivam directamente e literalmente da Bíblia ideologias patéticas como o Creacionismo, quer dizer que o Cristianismo, como um todo, também move guerras contra o Ciência, o Ocidente laico e a própria realidade!? Então por haver algum culto Cristão chefiado por fundamentalistas loucos com uma doutrina mais ou menos coerente, tipo David Koresh em Waco ou Joseph Kony no Uganda, deve-se também extrapolar que o Cristianismo é a favor de cultos armados e de violar crianças? Em nome de qualquer grande religião podem-se sempre derivar políticas e montar doutrinas para justificar o que quer que seja.

Os meus amigos habituais devem estar a pensar porque diabo anda o Hey City Zen! a meter-se nestas coisas? Apesar de muito presar o elemento low-key deste blog, a sua motivação, como diz em cima, também é: “for the sake of reason”. O que tenho lido nos últimos dias vindo da direita Portuguesa é tudo mesmo racional. É impressionante como pessoas inteligentes, por escreverem bem, podem dar um verniz tão racional a pensamentos e motivações que são fundamentalmente irracionais, racistas e xenofóbos. Lá tenho que chamar o John Cleese outra vez:

"All wood burns," states Sir Bedevere. "Therefore," he concludes, "all that burns is wood." This is, of course, pure bullshit! Universal affirmatives can only be partially converted. All of Alma Cogan is dead, but only some of the class of dead people are Alma Cogan. Obvious, one would think.

However, my wife does not understand this necessary limitation of the conversion of a proposition. Consequently, she does not understand me. For how can a woman expect to appreciate a professor of logic if the simplest cloth-eared syllogism causes her to flounder?

2006-02-08

 

Bomba Ilógica

Concordo que ultimamente a bomba tem sido bombástica, mas nem por isso que tenha sido inteligente. Parece-me que ela tem que voltar à aula de lógica se não de estatística, ou então arranjar uma maneira mais inteligente de avançar a sua posição, em ultima análise, racista. O problema é que a bomba confunde silogismo com metáfora...

Vejamos então as bombas ilógicas largadas:

“Convenhamos que a ressurreição de Jesus Cristo não está na ordem do dia (nem há três anos estava) e Maomé nunca esteve tão na berra. Pelos piores motivos: actos de terrorismo justificados pela religião islâmica.”

“Era só o que faltava não podermos criticar e ridicularizar terroristas, que matam pessoas em nome de Alá! Daí a pertinência das caricaturas: a religião islâmica está cada vez mais associada ao terror.”

Se eu consigo retirar a sua lógica, estas bombas parecem querer dizer: todos, ou quase todos, os actos terroristas dos últimos anos foram praticados por muçulmanos, portanto a religião islâmica é uma religião terrorista, o que implica que os muçulmanos são terroristas -- justificando assim a vontade de alguns de ridicularizar os costumes desta religião (nomeadamente o tabu da iconificação do seu profeta).

Longe de mim ser contra a brincadeira sobre os tabus de qualquer religião. Para quem como eu já viajou de Londres a Los Angeles, em pleno Agosto, ao lado (nas cadeiras do meio de um 747) de um Judeu Hasídico em permanentes espasmos de oração, ou teve que assistir a uma cerimónia evangelista de 5 horas cheia de extases carismáticos e orações pelos hereges Darwinianos, mostrar os excessos de qualquer religião é muito salutar. Também acho que o valor da liberdade de expressão implica a aceitação de ataques a elementos sagrados, mesmo os de mau gosto como os filmes do Pasolini ou os cartoons no meio da actual crise.

O que me preocupa nas bombas da bomba é a falácia dos seus argumentos, infelizmente comum em grupos que se vêm superiores ou simplesmente xenófobos:

1. A Madeira Queima-se
2. As Bruxas Queimam-se
logo: As Bruxas são feitas de madeira

mais precisamente:

1. Os terroristas seguem o Islão
2. Os Muçulmanos seguem o Islão
logo: os Muçulmanos são terroristas

É uma lógica com um objectivo muito bem definido: queimar a bruxa (ou o muçulmano, neste caso). É algo como a lógica dos puritanos tão bem ridicularizada pelos Monty Python no Holy Grail:

Villagers: (enter yelling) A witch! A witch! We've found a witch! Burn her! Burn her!
Bedimere: there are ways of telling if she's a witch. What do you do with witches?
Villagers: Burn them!
Bedimere: And what do you burn, apart from witches?
Villagers: Wood?
Bedimere: Right! So why do witches burn?
Villagers: Because they're made of wood?
Bedimere: Right! . Now, what else do you do with wood?
Villagers: Build bridges with it!
Bedimere: But do we not also build bridges from stone; does wood float in water?
Villagers: Yes.
Bedimere: And what else floats in water?
King Arthur: (after more confused suggestions from the villagers) A duck!
Bedimere: Right! So, if she weighs the same as a duck, she'd float in water, and she must be made of wood, so.
Villagers: A witch! Burn her!
(They weigh the woman on a large scale with a duck in the other balancing basket, but inexplicably the scales do not tilt one way or the other. As the villagers drag the woman away, the witch looks at the camera and says with resignation "it was a fair court".)
Bedimere: (to King Arthur) Who are you who are so wise in the ways of science?


Uma forma mais indutiva de ver a falácia, seria olhar para as probabilidades. Há cerca de 1.3 mil milhões de muçulmanos no Mundo. Não sei bem com estimar o numero de muçulmanos capazes de um acto terrorista, mas de certeza que será um numero menor dos que estão dispostos a ir para a rua queimar embaixadas devido a um cartoon. Pelo que tenho lido na imprensa, não me parece que no Mundo inteiro tenha havido mais do que um milhão de pessoas a atacar embaixadas, pois não? Isto é um majorante bastante conservador. Assim, a probabilidade de um muçulmano ir para a rua queimar embaixadas devido a um cartoon pode ser estimada (baseada neste majorante retirado assim do ar) em 1.000.000/1.300.000,000 = 1/1.300. Naturalmente a probabilidade de um muçulmano ser terrorista é muito menor.

Notem que isto é uma probabilidade muito menor do que a de um Português votar no Garcia Pereira (0,44 por cento = 1/227). Se a Bomba não quer que se diga que Portugal está cada vez mais associado ao Maoismo, ou que Portugal justifica o Maoismo, também não deveria deixar de largar as bombas (ilógicas) que larga.

Dois livros que a bomba deveria ler imediatamente são o Innumeracy e o Freakonomics.... Entretanto, fica aqui mais um pouco de Monty Python:

Good evening!

The last scene was interesting from the point of view of a professional logician because it contained a number of logical fallacies -- that is, invalid propositional constructions and syllogistic forms -- of the type so often committed by my wife.

"All wood burns," states Sir Bedevere. "Therefore," he concludes, "all that burns is wood." This is, of course, pure bullshit! Universal affirmatives can only be partially converted. All of Alma Cogan is dead, but only some of the class of dead people are Alma Cogan. Obvious, one would think.

However, my wife does not understand this necessary limitation of the conversion of a proposition. Consequently, she does not understand me. For how can a woman expect to appreciate a professor of logic if the simplest cloth-eared syllogism causes her to flounder?

For example: given the premise, "All fish live underwater" and "All mackerel are fish", my wife will conclude, not that "All mackerel live underwater", but that "If she buys kippers it will not rain" or that "Trout live in trees" or even that "I do not love her any more."

This she calls "using her intuition". I call it "crap" and it gets me very IRRITATED because it is not logical!

"There will be no supper tonight," she will sometimes cry upon my return home.

"Why not?" I will ask.

"Because I have been screwing the milkman all day," she will say, quite oblivious of the howling error she has made.

"But," I will wearily point out, "even given that the activities of screwing the milkman and getting supper are mutually exclusive, now that the screwing is over, surely then, supper may, logically, be got."





2006-02-02

 

Então e a Liza Minelli?

Mas Paulo, quem lhe disse que "eles" e "elas" não se podem reproduzir? Então não viu o "Brokeback Mountain"? e o "Kinsey"? Então e a Liza Minelli não nasceu?

Como diz o Gore Vidal (sim, um bocadinho antes de João Pereira Coutinho): homossexual é um adjectivo que se refere a actos, não o substantivo de uma nova "quase-especie" humana. Provavelmente existe uma determinação essencialmente genética para a preferência desses actos, mas também existe provavelmente uma propensidade genética para uma série muito grande de outros comportamentos, desde a aptidão pela matemática, até à propensidade para o vício.

Qualquer humano pode fazer matemática, viciar-se ou participar em actos sexuais variados. A ideia de que o casamento deveria ser só para pessoas com muita aptidão matemática é tão ridícula como o casamento só para pessoas que essencialmente preferem actos heterosexuais. O casamento ou união civil (o religioso cabe a cada religião), deve ser para qualquer grupo de humanos (adultos) que o entender fazer por vontade própria.

Se bem que o mais ridículo de tudo é o facto, logo à partida, de os estados se verem na necessidade de legislar sobre casamento at all!



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