2023-08-08

 

Shake it!

Have not posted a set in a while, so here is the first hour of a live DJ set last July at Roterdão Club in Lisbon's Pink Street. It starts with respect for the great Tina Turner, setting the tone for a party aimed mostly at shaking the booty. Tracklist and podcast available on E-Trash's site (Username: apollo, Password: feelingfree).








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2023-01-27

 

What a Street Feeling!

I really loved going back to live DJing in 2022, mostly at Roterdão Club in Lisbon's Pink Street. Here is a mix of various bits from those sets I collected the bits most inspired --- but not exclusively --- by 80s electro-disco from New York City. Tracklist and podcast below. What a Street Feeling! is also available on E-Trash's site (Username: apollo, Password: feelingfree).








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2022-12-27

 

Hey City Zen 2022

2022 was a hardworking year, though full of fun travel and reconnection with friends and family---thank you vaccines! I was particularly delighted to get back to DJing to full clubs again. Every year is a great year for music, with such amazing tracks, even if perhaps fewer great albums. I am sure I missed really excellent stuff, but here is the best City Zen of the year that made my radar. Top 40 Albums (including soundtracks and live collections), Top 100 Tracks, Top 20 Remixes/Edits (from E-Trash's DJ sets). The top tracks and remixes are assembled in a Spotify List as well.

Top 40 Albums of 2022

Grouped alphabetically in 4 groups below. 

Diamond Cut

There were 10 albums that stood above the rest. From casino rock to house music, these are amazing and creative from start to finish. 

Arcade Fire WE 
Arctic Monkeys The Car 
Beyoncé – RENAISSANCE
Honey Dijon – Black Girl Magic
Hot Chip Freakout/Release
Metronomy Small World 
Ana Moura – Casa Guilhermina
Rosalía – MOTOMANI 
Röyksopp – Profound Mysteries II
Harry StylesHarry’s House

Platinum Set

These 5 albums, coming from very distinct genres,  are almost flawless and I could not get enough of them:

Kendrick LamarMr. Morale & the Big Steppers
Soft CellHappiness Not Included
StromaeMultitude
Louie Vega – Expansions in the NYC
XinobiBalsame

Gold Circle 

Charlotte Adigéry and Bolis Pupul – Topical Dancer
Asa – V 
Yaya Bey – Remember your North Star
David Fonseca – Living Room Bohemian Apocalypse
Lucius – Second Nature
Red Hot Chili Peppers Return of the Dream Canteen
Röyksopp – Profound Mysteries I
Sault – 11
Jimi Tenor – Multiversum
The Weeknd – Dawn FM
Wet LegWet Leg

Silver Line

Charli XCXCRASH 
Christine and the QueensRedcar les adorables étoiles (prologue)
Danger Mouse and Black Thought Cheat Codes
Florence + The Machine Dance Fever
Cate Le Bon Pompeii
Sondre Lerche – Avatars of Love 
Maria João e OGRE ElectricSongs for Shakespeare
Marxist Love Disco Ensemble MLDE
Röyksopp Profound Mysteries III 
Sudan ArchivesNatural Brown Prom Queen 
Ron TrentWhat do stars say to you
The Weather StationHow is it that I should look at the stars? 

Best Live and Soundtrack albums of 2022

David Bowie – Moonage Daydream: A Brett Morgan Film
Cazuza O Tempo Não Para: O Show Completo

Best EPs of 2022

Three EPs were on rotation a lot, with more good tracks than many albums:

Benny Sings – Santa Barbara
Body Music and Bosq Give my Love a Try
Felipe Gordon Superimposition

Top 100 Tracks of 2022

The best way to display this is via a Spotify list which also includes the remixes below at the end. I created the list to be listened to in the order shown, but can also be listened to at random of course:



Top 20 Remixes and Edits of 2022


So many great remixes and edits this year. There were definitely 4 above the rest, which took the original into another place of excellence. All remixes, edits and mashups below elevate the originals either into a whole different place, a distilled essence, or simply make it work so well on the dance floor.  It is great when a track has two great lives, which is a remix at its best:

David Bowie Modern Love (Moonage Daydream Mix)
Cerrone Summer Lovin’ (Purple Disco Machine Remix)
Gorillaz feat. Tame Impala and Bootie Brown New Gold (Dom Dolla Remix)
Wet Leg – Too Late Now (Soulwax Remix)

The remaining awesome remixes alphabetically:

2raumwohung Bei Dir bin ich schön (Ian Pooley Remix)
David Bowie – Word on a Wing (Moonage Daydream Mix)
Marvin Gaye Let’s Get it On (Flight Facilities Remix)
Nina SimoneFeeling Good (Joel Corry Remix)
Goldie and James Davidson feat. La Meduza – Breakout (Mella Dee Moody Gaff Remix)
Halsey – So Good (Jax Jones Remix)
Hot Chip – Broken (Jacques LuCont Mix)
Loverush UK! Feat. Boy George and Rozy Yarnold – London Calling Paris (Boys’ Shorts Remix)
Lufthaus feat. Robbie Williams – Soul Seekers (Booka Shade Remix)
Metronomy – It’s good to be back (Metronomy x Panic Shack)
Kylie Minogue – Can’t get you out of my head (Peggy Gou’s Midnight Remix)
William Orbit – Starbeam (Dosem Edit)
Ryuichi Sakamoto – Merry Christmas Mr. Lawrence (Electric Youth Remodel)
Souleance GUILI (Art of Tones Remix)
The Weeknd Out of Time (Kaytranada Remix)
Xinobi feat. Meta_ - Mujer (Anja Schneider Remix)



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2022-12-19

 

Conhecimento não é descarregado

Muito me irrita a assunção circular inerente em quase toda a discussão sobre educação: que qualquer sucesso de conhecimento/inteligência advém da educação escolar. Isto é, apenas a escola pode "dar" conhecimento. Não, alguns têm sucesso *apesar* da escola (e.g. Ada Lovelace), e a maioria das pessoas criativas, ou que têm dificuldade em estar passivamente a "receber informação" têm imensas dificuldades na escola. Meti "dar" e "receber informação" entre aspas porque esse é o ponto fulcral do erro do modelo (Cartesiano) de escola que temos: conhecimento não é algo que se dá e se recebe como se fosse empacotado em fardos de batatas e descarregados por instrutores para as cabecinhas de meninos ligados às secretárias, com se fossem baterias na Matrix. O conhecimento é criado por cada um, de uma forma corpórea.

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2022-11-16

 

The universal part is powerful

Raphaël Glucksmann's "Lettre à la génération qui va tout changer" is a very exciting read. It made me feel very connected to younger generations and the possibility of change. It also highlights how much of a losing proposition identity politics is, with its ultimate reduction of the Republic to individuals and their identities. Effective action --- and indeed the pleasure of being in a Republic, a city --- lies in the universal, not in the individual aspects of citizens. Unity is Powerful.

"'To restore the republic everywhere' is to restore every citizen to the command post in each of us. We are more than men and women, more than rich and poor, more than believers or atheists, more than Christians or Muslims, more than black or white, more than heterosexual or homosexual, more than individual persons: we are citizens. There is a universal part of us that fades away when we don't cultivate it, when we don't regularly make the effort to get out of ourselves".




The Style Council - Walls Come Tumbling Down (Live Aid)

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Antirracismo seria desconstruir a raça. Meu nome é Gal!

O antirracismo não é extremo oposto do racismo, mas a maioria das suas vertentes em vez de desconstruirem, perpetuam as bases do racismo colonialista num ciclo Nietzschiano deprimente. Os movimentos antiracistas normalmente usam as mesmas categorias herdadas do colonialismo para definir pessoas. Podem até vestir essas mesmas categorias na linguagem da política identitária, mas não as destroem, antes pelo contrário. Por exemplo, o conceito de "pessoa racializada" não é mais do que o conceito racista e colonialista de alguém que não é branco puro (um conceito muito nefasto especialmente no colonialismo britânico e holandês, mas não só.) Um verdadeiro antirracismo iria contra a própria noção de raça, deixando para trás de uma vez por todas conceitos colonialistas como Africa ser negra e a Europa ser branca, africanos serem negros, europeus brancos, ou haverem pessoas brancas e outras "racializadas/manchadas". Esses conceitos não existiam nas épocas clássicas e medievais. Está na altura de nos libertar-mos dos nacionalismos e racismos que só apareceram com o nascimento de estados modernos. Para este debate é importante não esquecer que conceito de raça é social, quase nada biológico. Por isso, por um lado é muitíssimo importante porque a nossa vida é social, mas por outro lado, em última análise, é uma escolha individual e social continuar a usar e focar a luta pela igualdade de todos no conceito de raça---especialmente baseada na re-etiquetagem das divisões racistas criadas pelo colonialismo.

P.S. Meu nome é Gal! Viva o tropicalismo, verdadeira antropofagia de libertação, onde todas as raças são devoradas até à irrelevancia. Bullworth said it best.



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2022-08-27

 

Homem Rock Liberta-te!

Muito se tem falado sobre os Coldplay ultimamente. Desconfio muito dos que menosprezam o valor da banda porque "homens do rock" têm sempre muita dificuldade em aceitar as bandas bonitinhas, especialmente as lideradas por homens atraentes---talvez até porque sintam essa atração de forma homofóbica. É interessante depois ver e ler algumas mulheres seguir esse preconceito para serem parte da intelligentsia cultural, mas isso é outro assunto. Isto foi visto no ódio racista e homofóbico dos roqueiros ao disco nos anos 70 e 80. Mas o maior paralelo com os Coldplay são os Duran Duran nos anos 80 (e até Bowie anteriormente). Raro era então o homem que assumia gostar---e mulher quer quisesse ser parte da intelligentsia do "sete" e "Blitz" também. Era pop plástica maquilhada, e o verdadeiro artista queria-se grunge e feio, tais Jaques Brels recusando falar com o "maricas" do Bowie. Mas hoje quando passo música deles, o pessoal mais velho que na altura supostamente detestava, salta todo para a pista, hungry like the wolf, como se fosse a música da vida deles. O importante é viver la vida e gostar sem preconceitos. Não gosto de tudo dos Coldplay, mas não duvido que marcam imenso o presente e que quem desdenha agora, um dia vai ouvir com nostalgia.

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2022-03-03

 

Systems Anarchist?

Jewels one finds unpacking book boxes after a move: a lovely collection edited Joe Peacott "Against Separatism." I could be an anarchist, a "systems anarchist," but I know that to be a contradiction in terms, with its implicit organizing principles of collective behavior and evolution---essential for resilience in the face of great challenges like pandemics and climate change. But it is hard to ignore that nationalism, and all associated identitary "isms", pit us all against one another as class representatives. At the same time, pure or radical anarchic individualism easily destroys liberal society and the robust shelter it brings to individual freedom. 

Liberal society, as an ideal, is anarchist in the nonradical sense that it aims to maximize individual freedom without special privilege or rules given to any class/group, but it also has to be organized around society and its collective survival. So it cannot escape the establishment of at least one class defining membership in the society: that of citizen. The challenge is how global and humane can such a class become for a given society not to disintegrate? I don't know the answer, obviously. I also know that liberal society has been very far from its ideal in curbing privilege---though still much better than any other alternative (illiberal) society we have seen. But the last century has shown that all nationalism and indeed identity politics only take liberal society further away from that nonradical anarchist ideal. 

Anyway, some interesting quotes from the little book:

"The primary problem with most leftist positions is that they promote group interests over individual interests and further isolate people from each other." From Anarchists and the left, Joe Peacott

 "Nationalism, like feminism, is based on the primacy of groups over individuals. Nationalists believe that 'nations' oppress other 'nations.' Anarchists, on the other hand, contend that some people oppress other people". From Anarchists and the left, Joe Peacott

"The ideal political categories of marxism prevent us from seeing the concrete individuals in our lives; instead we see the classes of which each individual is but a representative. As a consequence, we often treat the people we first encounter in everyday life, not as themselves as morally autonomous individuals with their own particular histories but as abstract class tokens with one collective history." From The Politics of Identity and Difference: Gynocentrist vs. Polyandrogynist Visions by Peter Cariani.  

"Perhaps the worst danger of nationalist strategies is that they do not eradicate the oppressive distinction on which the oppression is built. In the process of organizing along nationalist lines, it is necessary to create a strong group identity ("class consciousness"), and a strong sense of the Other." From The Politics of Identity and Difference: Gynocentrist vs. Polyandrogynist Visions by Peter Cariani.



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2022-03-01

 

Ser emigrante português é ser cidadão de décima classe e deixa muitos democraticamente apátridas

Publicado em Público, 22 de Março de 2022

A controvérsia sobre o voto da emigração que foi anulado e levou à remarcação das eleições nos círculos europeus, ofusca uma muito maior afronta à cidadania dos emigrantes consagrada na lei eleitoral: os seus votos contam apenas para 4 dos 230 deputados da Assembleia da República.  

Segundo o Relatório da Emigração de 2020 no Portal das Comunidades Portuguesas, em 2019 mais de 2.6 milhões de cidadãos portugueses nascidos em Portugal encontravam-se a viver no estrangeiro números que não incluem os cidadãos portugueses filhos desses 2.6 milhões (os chamados, Luso-descendentes). Portanto, os cerca de 10 milhões cidadãos residentes em Portugal elegem 226 deputados, enquanto os 2.6 milhões de cidadãos residentes no estrangeiro elegem apenas 4. Aproximadamente 44 mil residentes elegem cada deputado, mas são precisos 650 mil emigrantes para conseguir o mesmo. Isto é, em termos de representatividade democrática, um cidadão emigrante vale 7% dum cidadão residente. Para caracterizar esta discrepância na representatividade de pessoas que são todas supostamente cidadãs da mesma República, o epíteto cidadão de segunda não chega, mais correto seria dizer que os emigrantes são cidadãos de décima classe.

É interessante notar tantos artigos em Portugal sobre injustiças nas democracias dos outros, mas tão pouco debate sobre este tratamento tão discriminatório de concidadãos na nossa própria democracia. Quando tento abordar este tema oiço várias justificações que penso valer a pena discutir. Num extremo, há quem diga que os emigrantes nem se quer deviam ter deputado nenhum. É espantoso, mas infelizmente comum, que haja quem abertamente defenda que se deve retirar a cidadania a concidadãos por estarem a residir e trabalhar fora de Portugal em determinado momento. É importante notar que não é normal que tal aconteça em democracias ocidentais. Por exemplo, apesar dos problemas eleitorais que os media portugueses adoram discutir, um cidadão americano não perde qualquer representatividade democrática por viver noutro país por qualquer período de tempo−devo dizer que tenho dupla cidadania americana e portuguesa.

Uma justificação menos extrema tem a ver com o conceito de representação material no processo legislativo. Deste ponto de vista, os emigrantes, por não viverem em Portugal, são vistos como cidadãos não vinculados às leis que o parlamento delibera. Isto é, os emigrantes são vistos como cidadãos apenas simbolicamente e não materialmente – ligados à República. Daí a sua representatividade dever ser apenas simbólica. Nesta perspetiva, os emigrantes são tipo aqueles estrangeiros que gostam da seleção portuguesa de futebol, mas não “arriscam a pele” em Portugal−não têm “skin in the game” para usar a expressão que Nassim Nicholas Taleb tanto gosta.

Esta visão do emigrante eternamente desterrado – e daí desacoplado materialmente da Républica −está obviamente ultrapassada no mundo global do século XXI, especialmente para emigrantes na União Europeia, nos países lusófonos e até nos parceiros atlânticos.  Em meados do século XX talvez ainda fizesse sentido pensar que os emigrantes fossem em barcos para portos distantes dos quais nunca mais regressavam. Mas não é isso que se passa hoje. Os emigrantes, que pertencem a todas as áreas e níveis de educação, vão e vêm, têm em Portugal filhos, pais, família, propriedade, investimentos, produção intelectual e criativa, etc. Grande parte deles estão tudo menos desacoplados da Républica.

Só uma visão muito paroquial pode pensar que os cidadãos emigrantes não estão materialmente envolvidos no país e que devem ser excluídos ou apenas incluídos simbolicamente. Permitam-me partilhar um pouco mais da vida pessoal apenas para exemplificar o tipo de relações bidirecionais, concretas comuns a muitos outros emigrantes. Sou professor universitário e cientista há 30 anos nos EUA. Mas faço contribuições materiais e intelectuais diretas para Portugal diariamente e, vice-versa, é óbvio que as leis deliberadas pelo parlamento me vinculam como cidadão. Os meus filhos, nascidos e crescidos nos EUA, decidiram viver em e contribuir para Portugal. Porquê que o meu voto deve contar apenas 7% do voto de qualquer outro cidadão que tenha contribuído materialmente, intelectualmente e geracionalmente para Portugal? Noto que os EUA não retiram aos meus filhos o direito de voto a 100% para qualquer eleição no círculo nacional em que estão registados por estarem a viver em Portugal (e terem dupla cidadania). E porque haveriam de retirar? Contribuímos para ambos os países a todos os níveis, incluindo em patriotismo.

Uma outra justificação, ou receio, é que dado o elevado número de emigrantes, se estes tivessem a mesma representatividade, Portugal poderia ser governado “por telecomando” por quem não vive no país. Pelo que escrevi acima, é claro que pelo menos grande proporção está materialmente envolvida, com muita “skin in the game” em Portugal. É perfeitamente razoável que a Républica institua critérios para que a cidadania seja mantida por exemplo, os cidadãos americanos têm que pagar impostos aos EUA onde quer que residam, havendo acordos bilaterais com grande parte dos países para evitar dupla taxação. O que não é razoável é que a cidadania seja retirada para os simbólicos 7%. Até porque a experiência de 2.6 milhões de emigrantes deveria ser valorizada na deliberação democrática. Afinal, quem melhor do que eles para saber porque tiveram que sair do país? Ou quais os mecanismos que permitem fazer carreiras produtivas noutros lugares? Pode Portugal continuar a dar-se ao luxo de ignorar esse feedback político? Quem tem medo dele? Talvez um pouco mais de “telecomando da emigração” no poder ajude a desenvolver um país em que os jovens não tenham que emigrar mais.

É importante também ter em atenção que grande parte dos emigrantes portugueses não tem outra nacionalidade. Quando Portugal lhes retira a sua representatividade, reduzindo-a a 7% dos outros cidadãos, a grande maioria não tem representatividade eleitoral noutro país. Ficam assim democraticamente apátridas. Essa situação na qual estive durante mais de 20 anos − é uma afronta aos direitos de cidadania, e não deveria ser constitucional.  Não me admira que a maioria dos emigrantes não vote e ache esta última controvérsia hipócrita e apenas usada para jogo partidário. Aliás, dada tamanha discriminação, advogo um movimento de desobediência civil. Sugiro que é do interesse democrático que os emigrantes se mantenham registados em círculos eleitorais nacionais em vez dos círculos de emigração onde residem. Bem como organizarem-se em partidos com representação parlamentar que advoguem pelo fim desta discriminação.

Ignorar a cidadania dos que tiveram que sair por falta de oportunidade estará porventura enraizada num país que no fundo ainda age como metrópole de uma Républica imperial, com uma noção de nacionalidade desatualizada.  São tiques de superioridade difíceis de ser reconhecidos por um regime que imagina que exorcizou os fantasmas do antigo regime. Mas quem como eu nasceu “branco de segunda” em Angola, está farto de ser tratado como cidadão de décima classe num país para o qual já tanto contribuiu.


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2022-02-19

 

Social media helps understand sudden death in epilepsy


In a paper in the journal Epilepsy & Behavior,  in a collaboration with Ian Wood, Rion Correia and Wendy Miller sponsored by the National Institutes of Health, National Library of Medicine, we demonstrate that social media, in this case Facebook, could be used to detect behaviors preceding Sudden Unexpected Death in Epilepsy (SUDEP), the leading cause of death in people with uncontrolled epileptic seizures. This  interdisciplinary work involving informatics/complex systems researchers, clinical/behavioral epilepsy scientists, and supported by the Epilepsy Foundation of America, brought to light findings that are highly relevant for people living with this chronic condition. The team is currently working on a personalized web service for epilepsy, myAura, which will include diverse clinical and non-clinical data, namely self-reported patient entries regarding seizures, medication adherence, and physician encounters. This easy-to-use web service will also include the option for users to donate their social media timelines, making this data more easily accessible for larger studies.

You can read the article following the links in reference:

I.B. Wood, R.B. Correia, W.R. Miller, and L.M. Rocha [2022]. "Small Cohort of Epilepsy Patients Showed Increased Activity on Facebook before Sudden Unexpected Death". Epilepsy & Behavior. 128: 108580. DOI:10.1016/j.yebeh.2022.108580. Preprint: arXiv:2201.07552.

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2022-02-04

 

Princípios

A esquerda portuguesa tende a fazer um julgamento moral da direita, aparentemente por motivos fundamentais de democracia, mas já para si própria reserva argumentos pragmáticos (quem nos apoia, obter resultados, etc). É legítimo levantar o assunto "Stasi" como metáfora dos esqueletos ditatoriais da esquerda, porque é importante que a esquerda democrática se pergunte porque razão é aceitável haver na assembleia da república um vice-presidente do PCP, mas não um do Chega. Sim, Rui tavares explicou a sua posição pessoal sobre Lothar Bisky em particular, mas isso não chega porque não houve um tratamento completo sobre a sua posição em relação ao resto da esquerda com quem se coliga. Existe alguma linha vermelha? Digo isto com o à vontade de quem não podia estar mais longe do Chega e escolheu Livre nestas eleições (para manter o meu voto, vai ter que contribuir para maior clarificação democrática à esquerda). Mas devido ao Chega, a direita está a ser forçada a explicitar as suas linhas vermelhas democráticas e sociais fundamentais. Já está mais do que na hora da esquerda fazer o mesmo, em vez da habitual negação que tem uma vertente autoritária. Desconfio sempre quando a resposta é uma pseudomoralidade chocada, como que virgens vestais sob ataque, em vez do necessário trabalho moral sobre democracia. Se a esquerda realmente se opõe a um Vice-Presidente da Assembleia da Republica baseada num princípio fundamental contra autoritarismo, também tem que aplicar tal critério a si própria. É essa questão fundamental que está por trás da crítica do Sérgio Sousa Pinto (a origem do "meme Stasi"). Mas pelo menos o PCP (e o BE em grande medida) ainda não fez esse trabalho democrático. Aliás continua sem regenerar os seus líderes mesmo após derrota, já para não falar da sua defesa explícita de regimes ditatoriais---tantas vezes de forma racista dizendo, por exemplo, que o comunismo que defende é "Europeu" e que esses regimes têm outros "contextos sem tradição democrática."

Riton Presents Gucci Soundsystem Feat. Jarvis Cocker - Let’s Stick Around

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2022-01-20

 

Effective connectivity

J Royal Society Interface

I don't often post about our science on this blog, but it is also my Zen, I am going to start posting updates of that dimension here as well.

In a paper in the journal Journal of the Royal Society Interface,  in a collaboration started long ago with Manuel Marques-Pita and Santosh Manicka, we show that a large amount of redundancy exists in how genes, proteins and other biochemical components process signals. This results in much robustness to perturbations, allowing biological systems to exist in a stable or near-critical dynamical regime, despite being composed of thousands of biochemical variables which would ordinarily result in chaotic dynamics.

The measure of effective connectivity we developed captures redundancy in automata networks and is shown in the paper to be highly predictive of dynamical regime of biochemical systems ranging from flower development to breast cancer in humans. The approach thus adds empirical validity to several  well-known hypotheses in theoretical biology: 1) that canalization adds robustness to biological development put forth by C.H. Waddington, 2) that redundancy is essential for evolvability put forth by Michael Conrad, and 3) that biological organisms exist in a near-critical dynamical regime put forth by Stuart Kauffman. The new work further connects the three hypotheses by equating canalization with redundancy, providing a  measure of effective connectivity based on dynamical redundancy, and further showing that this measure very accurately predicts the dynamical regime of biochemical networks.

Beyond the biochemical models we tested, because automata networks are canonical examples of complex systems, the work suggests that redundancy and canalization should be important design principles of resilient and evolvable organizations.

You can read the article following the links in reference:

Manicka Santosh, Marques-Pita Manuel and Rocha Luis M. [2022]. "Effective connectivity determines the critical dynamics of biochemical networks." J. R. Soc. Interface. 19(186):20210659. doi: 10.1098/rsif.2021.0659.

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2022-01-10

 

Also Sprach the Jam

I had forgotten to post this live set, which I did in December in Madrid for the cocktail reception at the Complex Networks 2021 conference. It goes from Deodato's Jazzy/Groovy take on Strauss' Also Sprach Zarathustra to techno (the set went on to a few more techno tracks ommitted here), but strongly grounded on Disco/Funk/EuroDisco. Tracklist below. Also Sprach the Jam is available on E-Trash's site (Username: apollo, Password: feelingfree).








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2022-01-01

 

Hey City Zen 2021

2021 was a year full of personal change. Despite the pandemic, it was really a very good year personally. I switched jobs, with awesome conditions and some of our work was published in great venues. It does feel good to have your work appreciated!  It was also a great year for music and I even got to DJ again a little. I am sure I missed really excellent stuff, but here is the best City Zen of the year that made my radar. Top 40 Albums, Top 110 Tracks, Top 30 Remixes/Edits (from E-Trash's DJ sets),  Live albums and EPs. The top tracks and remixes are assembled in a Spotify List as well.


Top 40 Albums of 2021

Grouped alphabetically in 5 groups below. 

Diamond Cut

There were 4 albums that stood above the rest. I guess they are all a bit melancholic, reflecting the stressful times. This year, unlike last year and with the exception of the phenomenal Hanna Reid from London Grammar, I was most moved to the core by male acts. 

James Blake – Friends that break your heart
Sam Fender – Seventeen Going Under
London Grammar – Californian Soil
Moullinex – Requiem for Empathy

Platinum Set

These 6 albums, coming from very distinct genres, perhaps reflecting a year that was all over the place, are excellent from beginning to end and I could not get enough of them:

Benny SingsMusic
Gorgon CityOlympia
HalseyIf I can’t have love, I want power
JungleLoving in Stereo
Little SimzSometimes I Might be Introvert
Silk Sonic (Bruno Mars and Anderson.Paak)An evening with Silk Sonic

Gold Circle 

Adele30
ClaptoneCloser
Lana Del Rey – Blue Banister
Doja CatPlanet Her
Flight FacilitiesFOREVER
Floating Points, Pharoah Sanders & the London Symphony Orchestra – Promises
ParcelsDay/Night
PrinceWelcome 2 America
Purple Disco MachineExotica / Club Exotica
RhyeHome
ScrimshireNothing feels like everything
Sleaford ModsSpare Ribs
Caetano Veloso – Meu Coco
St. VincentDaddy’s Home
Weather Station - Ignorance
Paul Weller – Fat Pop

Silver Line

ABBAVoyage
Booka ShadeBoth
Bo Burnham – Inside (the Songs)
Duran DuranFuture Past
Karol GKG0516
Ney MatogrossoNú com a minha música
The SparksAnnette
TurnstileGlow On
Wolf AliceBlue Weekend

Bronze Medal

Tori Amos - Ocean to Ocean
CommonA beautiful Revolution Pt. 1& 2
Nick Cave & Warren EllisCarnage
Olivia RodrigoSour
Towa TeiLP

Best Collections and Box Sets of 2021

David BowieBrilliant Adventure (1992-2001)
Aretha Franklin - Aretha 4CD box set
Rita Lee & RobertoClassic Remix Vols. I, II, III
Various Artists –  Rusty Egan Presents  Blitzed
Various Artists –  Italians Do It Better

Best Live Albums of 2021

Still not enough live shows, so these albums kept that feeling alive:

David BowieLive at the Phoenix Festival 1997
MadonnaMadame X (Music From the Theater Xperience)
Moullinex - Live at Electrico
Rosa PassosLive in Copenhagen
Nina Simone – Live at the Montreaux Jazz Festival 1976
Paul Weller  An Orchestrated Songbook with Jules Buckley & the BBC Symphony Orchestra
Amy Winehouse – At the BBC

Best EPs of 2021


Five EPs were on rotation a lot, with more good tracks than many albums:

Daði Freyr – Welcome
Julien Doréaimée encore (Album from last year, so taking  new tracks as an EP)
BellaireDate at the Disco
Felipe GordonKeepin’ it Jazz
Jkriv and Peter Matson - Bigtime

Top 110 Tracks of 2021

I think this year deserves another 10 tracks :) The best way to display this is via a Spotify list which also includes the remixes below at the end (more or less organized, but can also be listened to at random):



Top 30 Remixes and Edits of 2021


So many great remixes and edits this year. Special mentions, first to one of my fave 2021 collections (see above):  Rita Lee & Roberto – Classic Remix Vols. I, II, III, which received amazing remixes from the likes of The Reflex, Gui  Boratto, Phonique, Fatnotronic, Dubdogs & Watzgood, and many others. Also amazing work by Scrimshire who remixed The Milk's entire 2020 album Cages with great results.

Looking at individual tracks, there were definitely 6 above the rest, which took the original into another place of excellence. All remixes, edits and mashups below elevate the originals either into a whole different place, a distilled essence, or simply make it work so well on the dance floor.  It is great when a track has two great lives, which is a remix at its best:

BellaireFrench Coast (Folamour Remix)
James Curd feat. Natasha Lillith – 1000 years (Phunkadelica Remix)
Deichkind – Autonom (Dixon Edit)
Gisela JoãoLouca (Stereossauro Remix)
Paul McCartney – Find my Way (Beck Reimagined Version)
Milk, TheThe Great Sorrow (Scrimshire Remix) 

The remaining awesome remixes alphabetically:

BaianaSystem feat. António Carlos & JocafiÁgua (Diogo Strauz & Jkriv Remix)
Bee GeesMore than a Woman (SG’s Paradise Edit)
Blu DeTigerVintage (Flight Facilities Remix)
Bob DylanJokerman (Reggae Remix and Instrumental Dub by Doctor Dread)
Chromatics, TheShadow (Maceo Plex Remix)
Marco Faraone & Greeko – Armaghetton (Jansons Extended Remix)
Gorgon CityDreams (Totally Enormous Extinct Dinosaurs Remix)
Alexia Gredy – Vertigo (Yuksek Remix)
Daryl Hall & John Oates – I can’t go for that (Nicolaas Remix)
Hot StreakBody Work (Dr. Packer Remix)
Jungle FireAtómico (Felipe Gordon Remix)
Rita Lee & Roberto – Mania de Você (Dubdogs & Watzgood Remix)
London Grammar - Lord it’s a Feeling (High Contrast Remix)
MetronomyEverything goes my way (Anna Prior Remix)
MorcheebaYou killed our love (BOYOCA Remix)
Roisin Murphy – Shellfish Mademoiselle (Paul Woolford Remix)
Giorgio Moroder – I wanna rock you (Tom Novy Extended Remix)
Polo & Pan Feat. Channel TresTunnel (Tim Paris Remix)
Purple Disco MachinePlaybox (Alex Virgo Remix)
RhyeBlack Rain (Jayda G Remix)
Rolling StonesSympathy for the Devil (LUXXURY Pleased 2 Meet U Edit)
Sam RuffilloDanza Organica (Musumeci remix)
Soft CellTainted Love (Jamie Jones 4Z remix)
Stone Foundation feat. Paul WellerDeeper Love (Opolopo Remix)

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2021-06-07

 

Superdubying

So here is another DJ set: a voyage from Dub to DrumNBass, Techno and House. I have listening to a lot of Reggae and Dub since watching Steve MeQueen's Lover's Rock. Somehow I distilled it to this set, thinking of hopefully returning to live DJing soon.At some point DJ Angst and E-Trash, will return to our cybernetic DJing whenever possible. Tracklist and podcast below. Superdubying is also available on E-Trash's site (Username: apollo, Password: feelingfree).



PlaceboOracle and E-Trash · Superdubying





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Burguesia do clickbait

Sinceramente não percebo onde está o trabalho académico ou intelectual nesta ideia de "Burguesia do Teletrabalho." A utilização metafórica de uma categoria anacrónica (referente a pelo menos duas transições/revoluções tecnológicas atrás), subentende trazer algo novo para acrescentar ao debate. Mas das duas uma, ou é uma tautologia ou está errada. Se a virmos como metáfora para todas as pessoas que hoje em dia trabalham em serviços informatizados, obviamente que essas são as que podem trabalhar de qualquer lugar ligado à rede. Não é novidade nenhuma que essas pessoas têm em media mais anos de escolaridade. Por isso se diz há décadas (desde Norbert Wiener em 1950) que a cibernetização da sociedade é uma revolução socioeconómica com importantes consequências laborais. Desse angulo, esta metáfora só repete o que já se sabe tautologicamente. Se se quer, no entanto, dizer que a população de serviços informatizados é privilegiada, então trata-se de uma metáfora preguiçosa e trapalhona, que é feita para clickbait por obvia e fácil conotação marxista. Os serviços informatizados incluem muita gente privilegiada, mas também incluem muita gente a ser explorada por falta de regulação, desde trabalhadores de call centers a programadores e editores em países subdesenvolvidos (pensar em mechanical turk, não Jack Dorsey). Por isso há tantos adultos com cursos superiores a viver em casa dos pais. Pelo contrário, também existe muita gente com trabalho não informatizado que é muito privilegiada, desde os técnicos de tecnologia não informatizada até donos e gestores de linhas de produção, lojas, agricultura---isto é, os verdadeiros Burgueses. Em ultima análise, do ponto de vista de saúde publica, ainda bem que grande parte da sociedade pode trabalhar em casa durante a pandemia. Isto é um fator de resiliência numa pandemia, não um fator negativo. A desigualdade, essa, deve ser reduzida para todos, incluindo os do teletrabalho. Mas não vejo como o conceito de Burguesia de teletrabalho vá ajudar nisso...


2021-03-01

 

Lumière D'Amore

So here is another DJ set I played live on twitch on February 21, 2021. This was a Sunday lounge set, a mood driven by euro soundscapes, from Space to Italo Disco and French touch, but also House music and very much still on the groovy side of things. Somehow the imagery from Roberto Rossellini's L'Amore with Anna Magnani and Federico Fellini fits. Again, sort of like a first set at the Riot Bootique, at least up to my mash-up of Digitalism with ABC; it windsdown into eurotarsh land from there for the end of the night :) Hopefully, at some point DJ Angst and E-Trash, will return to our cybernetic DJing whenever possible. Tracklist and podcast below. Lumière D'Amore is also available on E-Trash's site (Username: apollo, Password: feelingfree).








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2021-02-18

 

O sexo dos anjos, ou como a complexidade das pandemias exige pensamento sistémico

versão longa de artigo do Público.

Desde novembro de 2020 já morreram por Covid-19 quase 13000 pessoas em Portugal, sem contar com mortes indiretas devido à falta de atenção médica a outras doenças. É como se mais de 31 aviões Jumbo tivessem caído no nosso país. No meio da morte e devastação económica, é fácil esquecer que tudo isto se deve a um vírus 1000 vezes mais pequeno do que um cabelo humano que transitou de algum organismo para as nossas redes de alimentação, transporte, saúde, educação, economia, comunicação e governação.  Já aqui escrevi que o estudo das redes que ligam rapidamente o mais ínfimo vírus à mais potente economia não tem recebido a atenção necessária no Mundo ocidental. Mas é importante perceber porque a resiliência e até a sobrevivência da nossa sociedade face a pandemias necessita de uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar e sistémica.

Um dos sucessos da ciência tem sido a sua capacidade de delimitar problemas a uma escala apropriada aos nossos limites cognitivos. Na prática isto é feito agregando os efeitos de níveis em que não estamos interessados, assumindo que são suficientemente constantes para ser ignorados−ou considerados como condições fronteira na linguagem da física. Por exemplo, um oncologista pode na prática ignorar efeitos quânticos quando estuda a transmissão de fatores genéticos ligados ao cancro entre gerações.

Muitos problemas podem de facto ser estudados bem dessa maneira, algo que Herbert Simon atribuiu a hierarquias naturais de organização que permitem que muitos problemas sejam na prática “quase-decomponíveis.” Uma nota para lembrar que Simon foi um dos casos notáveis de interdisciplinaridade, tendo recebido tanto um Nobel em Economia como o premio Turing em computação.

A ciência estuda a natureza e sociedade delimitando-as de acordo com os níveis em que as experienciamos. Disciplinas e departamentos universitários são assim organizados desde o estudo do mais pequeno, como a física de partículas e a biologia molecular, até ao estudo da biosfera e astrofísica, passando pelo estudo de sociedades inteiras, como na economia e sociologia. O problema é que os fenómenos verdadeiramente complexos escapam a essa assunção de organização hierárquica, como demonstra esta pandemia ao emaranhar tantos níveis: desde as interações moleculares que permitiram ao SARS-Cov-2 passar para humanos, até às redes de transporte, economia e saúde publica que foram alteradas por essa transmissão molecular. Pior ainda, o vírus continua a sua evolução por seleção natural, e quanto mais se propaga, mais evolui, o que quer dizer que o seu impacto não é constante.

Como cada cientista é tipicamente treinado a lidar apenas com um nível, ignorando ou assumindo a estabilidade dos outros, nenhum é um “especialista” na pandemia que mistura todos os níveis dinamicamente. Esta complexidade está por trás de imensos problemas revelados neste contexto. Como disse Theodosius Dobzhansky, “nada faz sentido em Biologia sem ser à luz da evolução”. Mas até o epidemiologista chefe da Suécia e proponentes da declaração de Great Barrington aparentemente a esqueceram. Ao proporem não controlar a propagação, implicitamente assumiram que a transmissibilidade e letalidade do vírus se manteria constante, esquecendo que este evolui tanto mais quanto maior for a população de pessoas por infetar. Infelizmente as novas variantes demonstram o perigo dessa evolução, tornando medidas anteriormente eficazes (como confinamentos mais leves ou máscaras sociais) insuficientes para não ultrapassar a capacidade dos sistemas de saúde antes das vacinas começarem a fazer efeito (Figura 1).

Esquema conceptual da corrida entre vacinas e variantes mais infeciosas. Já não se trata de achatar a curva mas de ganhar tempo. Com as novas variantes, medidas de contenção anteriormente eficazes não chegam.  Imagem retirada com permissão de: Petersen, M.B., et al. 2021. “Communicate Hope to Motivate Action Against Highly Infectious Sars-cov-2 Variants.” PsyArXiv. February 9. doi:10.31234/osf.io/gxcyn.

Também muitos economistas tentam separar o fenómeno epidemiológico do impacto económico e social que medidas de saúde publica têm na população. Tratando em separado estes problemas, parece-lhes óbvio que minimizar as mortes por via de confinamento poderá sair caro demais para os mais pobres. O problema é que quando a propagação fica descontrolada, a mortalidade e desolação são tais que o impacto na economia é ainda maior, especialmente nos mais pobres. Veja-se a teimosia de não fechar as escolas após relaxamento no Natal, quando tantos países europeus fizeram o contrário. Só tornou muito pior tanto o número de mortos como a economia (e daí pior impacto nos mais pobres) porque agora temos de confinar agressivamente por mais tempojá para não falar da reputação de Portugal que está agora no Top 5 de mortes per capita por covid (países com mais de 3 milhões de habitantes)

Mas como se pode integrar a perícia de especialistas, treinados em níveis individuais, para otimizar a resposta à pandemia e obter sociedades mais resilientes? A resposta passa certamente por incluir mais pensamento sistémico. Esta aproximação iniciada no Sec. XX por cientistas como Alan Turing, John Von Neumann, Herbert Simon, Margaret Mead e outros, baseia-se no estudo de sistemas complexos por equipas interdisciplinares capazes de integrar o conhecimento de cada nível necessário ao problema. A aproximação nasceu precisamente para resolver problemas existenciais que nenhum cientista poderia resolver sozinho, como o Manhattan Project e a decifração das máquinas Lorenz e Enigma da Alemanha Nazi pelas equipas interdisciplinares de Bletchley Park. A metodologia tem sido extremamente produtiva desde a sua aplicação na Economia (de Herbert Simon a Elinor Olstrom) até aos melhores modelos de previsão da pandemia de COVID19 da atualidade.

Para formar estas equipas é essencial treinar cientistas que sejam 1) “bilingues” em modelos computacionais e noutra área científica especifica e 2) preparados a trabalhar em equipas interdisciplinares. Há mais de 15 anos que dirijo um programa doutoral nos EUA patrocinado por um grande projeto da National Science Foundation – para treinar este tipo de especialista. Cada aluno sai com um duplo doutoramento em sistemas complexos e numa área de foco, desde a física e biologia, à economia, sociologia e até a história da arte. Vários programas semelhantes existem pelo Mundo fora, produzindo uma nova geração de cientista e académico capaz de atravessar os níveis naturais e sociais envolvidos em problemas complexos. 

A existência destes feedbacks entre níveis que não são separáveis é precisamente o que define um sistema complexo como a pandemia. Para a resolver é necessário sair de caixas disciplinares e adotar pensamento sistémico. Mais do que “especialistas” ouvidos individualmente em cacofonia, precisamos de equipas verdadeiramente interdisciplinares que consigam atacar a pandemia em todo o seu complexo de níveis interligados. Não é difícil identificar quando um problema trespassa níveis e não pode ser resolvido apenas com conceitos usados nesse nível. Por exemplo, os problemas causados pelo fecho das escolas ou dos restaurantes no confinamento podem ser quase totalmente resolvidos com mais dinheiro, mas a propagação da pandemia não. Também não pode ser resolvida só pela virologia, mesmo com as vacinas. Necessita, entre outras coisas, de alteração e regulação de comportamentos, incluindo restrições temporárias de direitos civis. 

Ficou recentemente em voga defender que não se pode deixar a ciência “colonizar” a política na resposta à pandemia. No Twitter, Susana Peralta disse-me “O confinamento não é ‘necessário’. É uma escolha política. Tem vantagens e desvantagens. Pesá-los é do domínio da política. Nós, os técnicos/académicos, devemos alertar para as consequências de cada opção política nas nossas áreas. Ao governo e só ao governo compete decidir”. Isto é, a Ciência é vista como separada da governação e as suas disciplinas consideradas como variáveis independentes. Mas os países que melhor protegeram os seus cidadãos e economia da pandemia não o fizeram a ler Max Weber, nem levantar bandeiras ideológicas leva o vírus a mudar de comportamento. Finalmente percebo aquela história dos cidadãos de Constantinopla a discutir o sexo dos anjos com o exército Otomano à porta. Tal como os romanos bizantinos, grande parte da opinião está em negação face à realidade complexa da pandemia. A nossa realidade não está em curso estável para que possamos considerar cada um dos seus níveis separadamente; a pandemia é como uma singularidade que os mistura a todos. 

Veja-se por exemplo como a comissão nacional de proteção de dados deu um golpe mortal na aplicação de rastreio Stay Away Covid, ao deificar a privacidade como um valor absoluto separado do seu impacto na saúde publica e economia. Especificamente, exigiu que apenas médicos possam entrar códigos de casos positivos na aplicação, o que tornou a aplicação inútil. Mas aplicações como esta são componentes essenciais da aproximação sistémica das democracias da Ásia-Pacifico que controlaram a pandemiaincluindo países tão pobres como o Butão. Seria bom quantificar quantas mortes e desolação económica essa decisão da CNPD causou ao considerar a privacidade separadamente do contexto da pandemia.

Não podemos continuar a tratar a pandemia com especialistas separados por disciplina, nem tampouco focar exclusivamente na elevação de ideais políticos como se eles pudessem sobreviver separadamente se a pandemia continuar a evoluir descontroladamente por anos. Não está de todo fora das possibilidades este vírus−ou outro num futuro próximo−evoluir para algo que pode aniquilar a civilização−altura em que a democracia será tão relevante quanto o sexo dos anjos.




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