2006-01-24

 

Pátria

Pois estou de volta, de preto, como escrevi em baixo em Inglês. No ano passado desapareci quando se descobriu que o meu Pai tinha metástases no fígado. Além das várias viagens a Portugal para estar com ele, simplesmente fiquei sem vontade de escrever. Fiquei sem vontade de fazer qualquer coisa que não fosse directamente ligada à família mais próxima. O meu Pai acabou por falecer no último dia de Novembro, comigo neste outro lado do Atlântico. Soube no momento em que lhe telefonei, como habitualmente, e o seu telemóvel estava desligado . Nunca a distância planetária me pareceu tão intransponível.

Tínhamos falado no dia anterior; falámos do Natal e da nossa viagem a Lisboa daí a poucos dias. Ele só queria sair do hospital para nos ver a todos em casa: mulher, filhos e netos. A última vez que o vi foi em Outubro, no Hospital Pulido Valente, quando ele me falou da sua experiência já de muitos anos nesse hospital (à qual voltarei muito em breve). Entre Outubro e Novembro, pelo telefone e já raramente pela Internet, não me apercebi inteiramente, ou recusei aperceber-me, da sua deterioração física. Ele manteve sempre uma postura optimista comigo ao telefone, como aliás pela vida fora. Assombram-me as suas últimas semanas; o que terá pensado e passado. Revejo agora a lucidez que tinha da sua própria decadência física no Adriano tão perfeitamente ficcionalizado por Yourcenar em Memórias.





Devo toda a segurança que tenho no que faço ao meu Pai (assim como devo a vontade de alcançar à minha Mãe, e a lealdade a ambos e ao meu irmão). Em todas as aventuras, em todas as decisões ousadas, nas mudanças de direcção, na doença, no sucesso e no insucesso, ele sempre lá esteve como uma subtil mas inquebrável rede de segurança. A vida sem esta rede, mais do que difícil, acarreta um tipo de solidão que nunca antes senti.

Quem preza a independência acima de todos os outros valores, não percebe a segurança que é uma Pátria privada. Não é um valor moral, nacional, ou económico – nem sequer é um valor. É um sentimento de segurança e pertença que não carece de contexto ou atributo condicional. Um Avalon portátil.

Esta Pátria está agora algo, como dizer, desabraçada... Sem suporte. Mas há memória no sistema. Muitas coisas fazem mais sentido agora, outras tocam-nos inesperadamente. Imagino agora de forma mais real o que o meu Pai passou com a morte de seu Pai exactamente há 30 anos, no mesmo ano em que perdeu emprego, casa, status, dinheiro, comunidade e raízes em Angola. Tocam-me coisas inesperadas como os cheiros tropicais, ou a confiança que os meus filhos põe em mim nas ondas das praias, ou a igreja do Espírito Santo, com o seu cemitério cheio de nomes Portugueses, no sopé do vulcão Haleakala em Maui. Esta é a Pátria que me faz sentido; espero poder passá-la aos meus filhos.



Uma das últimas fotos tiradas pelo meu Pai: o seu Spot, o meu filho e eu, tirando uma foto com a Canon que ele me deu há mais de 20 anos (Algarve, Junho 2005).


Muitas outras coisas devo ao meu Pai, claro – como a curiosidade intelectual e gosto pela argumentação. Outros atributos gostaria de ter herdado ou aprendido: a estoicidade e a fácil aceitação das falhas dos outros. Com a idade, talvez lá chegue.

Quero também referir o sentimento positivo, dentro das circunstâncias, que foi sentido no velório e funeral. Tantas pessoas inesperadamente apareceram, simplesmente por gostarem do homem, sem se moverem por qualquer imposição ou incentivo social: alunos, colegas, vizinhos. Lembraram-me do meu Pai campeão nacional de basketball pelo I.S.T., os seus prémios no aeromodelismo, campeão nacional de Bridge, feroz jogador de Xadrez, etc., etc. Acima de tudo lembraram-me a quantos ele tocou. A todos muito, muito obrigado.


José Luis da Silva Rocha
(1936-2005)

Comments:

Post a Comment



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?