2013-12-09

 

Just the facts ma'am

Tenho pena que muitas vezes a esquerda em Portugal seja tão emocional. É bastante mais semelhante com a direita americana, nesse aspeto. Há uma certa aversão aos factos, e depois, quando constatados com os factos, um cinismo e mesmo desonestidade intelectual.

O caso dos últimos dias tem sido sobre a votação do governo Português na ONU em 1987 sobre a África do Sul e o Apartheid. Nessa altura Cavaco Silva era primeiro-ministro e Mário Soares era presidente da República. Daniel de Oliveira no Expresso lançou chamas das fagulhas de Ana Gomes, dizendo: "[Cavaco Silva] que desalinhou com quase todo o mundo no momento em que Mandela precisava da nossa voz, vir, neste momento, falar da coragem política, da estatura moral e das lições de humanidade de Mandela". Isto depois de definir a situação de 1987 como restrita a uma votação de uma resolução na ONU "que incluía um apelo para a libertação incondicional de Mandela" em que Portugal, Juntamente com Reino Unido e EUA, votou contra. Os outros países Europeus abstiveram-se. Inúmeros outros blogues subescreveram sem olhar aos factos.

Claro que os factos vieram ao de cima, e afinal havia várias moções nesta votação, tendo Portugal votado contra a A(a que Daniel de Oliveira mencionava), mas a favor da G, que também exigia "libertação incondicional de Mandela ". Hoje, Daniel de Oliveira defende-se contra-atacando cinicamente, mas nunca justificando que o que disse inicialmente estava errado: o governo Portugês, ao contrário da implicação do seu primeiro texto, votou favoravelmente a favor do fim imediato do Apartheid e da libertação de Mandela.
De facto, Daniel Oliveira está a ser cínico. O que estava em causa é a afirmação inicial dele, de que Cavaco votou contra a libertação de Mandela. Isso é factualmente errado, não é uma questão de opinião. Também é um facto que as resoluções A e G são essencialmente idênticas com a exceção do recurso à luta armada. Em tudo o resto são idênticas: condenação e exigência de fim do Apartheid, bem como a libertação imediata de Mandela e de todos os presos políticos. Naturalmente as pessoas agora podem dizer que o recurso à luta armada era razoável. Isso é já uma questão de opinião e podemos concordar ou não. Os EUA, R.U. e Portugal acharam que não (penso no caso de Portugal por causa da comunidade Portuguesa lá), muitos outros países acharam que sim, que o ANC tinha direito à luta armada. Os outros países europeus não acharam nada com a sua abstenção, isto é, deram o sim e o não à luta armada. O mesmo fez Mário Soares que não fez na altura nenhuma comunicação pública sobre o assunto.

Infelizmente, quando se entra em discussão com certos blogues de esquerda, quando os factos são postos na mesa, e estamos já fora da opinião, os comentários a esse respeito são omitidos.

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