2023-08-08
Shake it!
Labels: #Disco, #DJ, #Funk, #House, #Pop
2023-01-27
What a Street Feeling!
Labels: #80s, #Disco, #DJ, #Electro, #Funk, #House, #Music, #NYC
2022-12-27
Hey City Zen 2022
Top 40 Albums of 2022
Grouped alphabetically in 4 groups below.Diamond Cut
Platinum Set
Gold Circle
Silver Line
Best Live and Soundtrack albums of 2022
Best EPs of 2022
Top 100 Tracks of 2022
Top 20 Remixes and Edits of 2022
Labels: #2022, #BestOf, #DJ, #Lists, #Music, #YearEnd
2022-12-19
Conhecimento não é descarregado
Labels: #Educação #Conhecimento
2022-11-16
The universal part is powerful
"'To restore the republic everywhere' is to restore every citizen to the command post in each of us. We are more than men and women, more than rich and poor, more than believers or atheists, more than Christians or Muslims, more than black or white, more than heterosexual or homosexual, more than individual persons: we are citizens. There is a universal part of us that fades away when we don't cultivate it, when we don't regularly make the effort to get out of ourselves".
The Style Council - Walls Come Tumbling Down (Live Aid)
Labels: #Citizenship, #politics, #Republic, #Unity, #universality
Antirracismo seria desconstruir a raça. Meu nome é Gal!
P.S. Meu nome é Gal! Viva o tropicalismo, verdadeira antropofagia de libertação, onde todas as raças são devoradas até à irrelevancia. Bullworth said it best.
2022-08-27
Homem Rock Liberta-te!
Labels: #Music
2022-03-03
Systems Anarchist?
Labels: #Anarchism, #politics, #Society
2022-03-01
Ser emigrante português é ser cidadão de décima classe e deixa muitos democraticamente apátridas
Publicado em Público, 22 de Março de 2022.
A controvérsia sobre o voto da emigração que foi anulado e levou à remarcação das eleições nos círculos
europeus, ofusca uma
muito maior afronta à cidadania dos emigrantes consagrada na lei eleitoral: os
seus votos contam apenas para 4 dos 230 deputados da Assembleia da República.
Segundo o Relatório da Emigração de 2020 no Portal
das Comunidades Portuguesas, em 2019 mais de 2.6 milhões de cidadãos portugueses nascidos em Portugal
encontravam-se a viver no estrangeiro − números que não incluem os cidadãos portugueses
filhos desses 2.6 milhões (os chamados, Luso-descendentes). Portanto, os cerca
de 10 milhões cidadãos residentes em Portugal elegem 226 deputados, enquanto os
2.6 milhões de cidadãos residentes no estrangeiro elegem apenas 4. Aproximadamente
44 mil residentes elegem cada deputado, mas são precisos 650 mil emigrantes
para conseguir o mesmo. Isto é, em termos de representatividade democrática, um
cidadão emigrante vale 7% dum cidadão residente. Para caracterizar esta
discrepância na representatividade de pessoas que são todas supostamente
cidadãs da mesma República, o epíteto cidadão de segunda não chega, mais
correto seria dizer que os emigrantes são cidadãos de décima classe.
É interessante
notar tantos artigos em Portugal sobre injustiças nas democracias dos outros,
mas tão pouco debate sobre este tratamento tão discriminatório de concidadãos na
nossa própria democracia. Quando tento abordar este tema oiço várias
justificações que penso valer a pena discutir. Num extremo, há quem diga que os
emigrantes nem se quer deviam ter deputado nenhum. É espantoso, mas infelizmente
comum, que haja quem abertamente defenda que se deve retirar a cidadania a
concidadãos por estarem a residir e trabalhar fora de Portugal em determinado
momento. É importante notar que não é normal que tal aconteça em democracias
ocidentais. Por exemplo, apesar dos problemas eleitorais que os media portugueses
adoram discutir, um cidadão americano não perde qualquer representatividade
democrática por viver noutro país por qualquer período de tempo−devo dizer que tenho dupla cidadania americana e portuguesa.
Uma justificação
menos extrema tem a ver com o conceito de representação material no processo
legislativo. Deste ponto de vista, os emigrantes, por não viverem em Portugal,
são vistos como cidadãos não vinculados às leis que o parlamento delibera. Isto
é, os emigrantes são vistos como cidadãos apenas simbolicamente – e não
materialmente – ligados à República.
Daí a sua representatividade dever ser apenas simbólica. Nesta perspetiva, os
emigrantes são tipo aqueles estrangeiros que gostam da seleção portuguesa de
futebol, mas não “arriscam a pele” em Portugal−não têm “skin in the game”
para usar a expressão que Nassim Nicholas Taleb tanto gosta.
Esta visão do emigrante
eternamente desterrado – e daí desacoplado materialmente da Républica −está
obviamente ultrapassada no mundo global do século XXI, especialmente para
emigrantes na União Europeia, nos países lusófonos e até nos parceiros atlânticos. Em meados do século XX talvez ainda fizesse
sentido pensar que os emigrantes fossem em barcos para portos distantes dos
quais nunca mais regressavam. Mas não é isso que se passa hoje. Os emigrantes,
que pertencem a todas as áreas e níveis de educação, vão e vêm, têm em Portugal
filhos, pais, família, propriedade, investimentos, produção intelectual e
criativa, etc. Grande parte deles estão tudo menos desacoplados da Républica.
Só uma visão
muito paroquial pode pensar que os cidadãos emigrantes não estão materialmente
envolvidos no país e que devem ser excluídos ou apenas incluídos
simbolicamente. Permitam-me partilhar um pouco mais da vida pessoal apenas para
exemplificar o tipo de relações bidirecionais, concretas comuns a muitos outros
emigrantes. Sou professor universitário e cientista há 30 anos nos EUA. Mas faço
contribuições materiais e intelectuais diretas para Portugal diariamente e, vice-versa,
é óbvio que as leis deliberadas pelo parlamento me vinculam como cidadão. Os
meus filhos, nascidos e crescidos nos EUA, decidiram viver em e contribuir para
Portugal. Porquê que o meu voto deve contar apenas 7% do voto de qualquer outro
cidadão que tenha contribuído materialmente, intelectualmente e geracionalmente
para Portugal? Noto que os EUA não retiram aos meus filhos o direito de voto a
100% para qualquer eleição no círculo nacional em que estão registados por
estarem a viver em Portugal (e terem dupla cidadania). E porque haveriam de
retirar? Contribuímos para ambos os países a todos os níveis, incluindo em
patriotismo.
Uma outra
justificação, ou receio, é que dado o elevado número de emigrantes, se estes tivessem
a mesma representatividade, Portugal poderia ser governado “por telecomando”
por quem não vive no país. Pelo que escrevi acima, é claro que pelo menos
grande proporção está materialmente envolvida, com muita “skin in the game”
em Portugal. É perfeitamente razoável que a Républica institua critérios para
que a cidadania seja mantida −por exemplo, os cidadãos americanos têm
que pagar impostos aos EUA onde quer que residam, havendo acordos bilaterais
com grande parte dos países para evitar dupla taxação. O que não é razoável é
que a cidadania seja retirada para os simbólicos 7%. Até porque a experiência
de 2.6 milhões de emigrantes deveria ser valorizada na deliberação democrática.
Afinal, quem melhor do que eles para saber porque tiveram que sair do país? Ou
quais os mecanismos que permitem fazer carreiras produtivas noutros lugares?
Pode Portugal continuar a dar-se ao luxo de ignorar esse feedback político?
Quem tem medo dele? Talvez um pouco mais de “telecomando da emigração” no poder
ajude a desenvolver um país em que os jovens não tenham que emigrar mais.
É importante
também ter em atenção que grande parte dos emigrantes portugueses não tem outra
nacionalidade. Quando Portugal lhes retira a sua representatividade,
reduzindo-a a 7% dos outros cidadãos, a grande maioria não tem
representatividade eleitoral noutro país. Ficam assim democraticamente
apátridas. Essa situação – na qual estive durante mais de 20 anos − é uma
afronta aos direitos de cidadania, e não deveria ser constitucional. Não me admira que a maioria dos emigrantes
não vote e ache esta última controvérsia hipócrita e apenas
usada para jogo partidário. Aliás, dada tamanha discriminação, advogo um movimento de desobediência
civil. Sugiro que é do interesse democrático que os emigrantes se mantenham
registados em círculos eleitorais nacionais em vez dos círculos de emigração
onde residem. Bem como organizarem-se em partidos com representação parlamentar
que advoguem pelo fim desta discriminação.
Ignorar a
cidadania dos que tiveram que sair por falta de oportunidade estará porventura
enraizada num país que no fundo ainda age como metrópole de uma Républica
imperial, com uma noção de nacionalidade desatualizada. São tiques de superioridade difíceis de ser
reconhecidos por um regime que imagina que exorcizou os fantasmas do antigo
regime. Mas quem como eu nasceu “branco de segunda” em Angola, está farto de
ser tratado como cidadão de décima classe num país para o qual já tanto
contribuiu.
Labels: #Cidadania, #Emigração, #Emmigration, #Opinion
2022-02-19
Social media helps understand sudden death in epilepsy
In a paper in the journal Epilepsy & Behavior, in a collaboration with Ian Wood, Rion Correia and Wendy Miller sponsored by the National Institutes of Health, National Library of Medicine, we demonstrate that social media, in this case Facebook, could be used to detect behaviors preceding Sudden Unexpected Death in Epilepsy (SUDEP), the leading cause of death in people with uncontrolled epileptic seizures. This interdisciplinary work involving informatics/complex systems researchers, clinical/behavioral epilepsy scientists, and supported by the Epilepsy Foundation of America, brought to light findings that are highly relevant for people living with this chronic condition. The team is currently working on a personalized web service for epilepsy, myAura, which will include diverse clinical and non-clinical data, namely self-reported patient entries regarding seizures, medication adherence, and physician encounters. This easy-to-use web service will also include the option for users to donate their social media timelines, making this data more easily accessible for larger studies.
You can read the article following the links in reference:
I.B. Wood, R.B. Correia, W.R. Miller, and L.M. Rocha [2022]. "Small Cohort of Epilepsy Patients Showed Increased Activity on Facebook before Sudden Unexpected Death". Epilepsy & Behavior. 128: 108580. DOI:10.1016/j.yebeh.2022.108580. Preprint: arXiv:2201.07552.
Labels: #DataScience, #Epilepsy, #Facebook, #Science, #SocialMedia
2022-02-04
Princípios
Riton Presents Gucci Soundsystem Feat. Jarvis Cocker - Let’s Stick Around
Labels: #politics
2022-01-20
Effective connectivity

I don't often post about our science on this blog, but it is also my Zen, I am going to start posting updates of that dimension here as well.
In a paper in the journal Journal of the Royal Society Interface, in a collaboration started long ago with Manuel Marques-Pita and Santosh Manicka, we show that a large amount of redundancy exists in how genes, proteins and other biochemical components process signals. This results in much robustness to perturbations, allowing biological systems to exist in a stable or near-critical dynamical regime, despite being composed of thousands of biochemical variables which would ordinarily result in chaotic dynamics.
The measure of effective connectivity we developed captures redundancy in automata networks and is shown in the paper to be highly predictive of dynamical regime of biochemical systems ranging from flower development to breast cancer in humans. The approach thus adds empirical validity to several well-known hypotheses in theoretical biology: 1) that canalization adds robustness to biological development put forth by C.H. Waddington, 2) that redundancy is essential for evolvability put forth by Michael Conrad, and 3) that biological organisms exist in a near-critical dynamical regime put forth by Stuart Kauffman. The new work further connects the three hypotheses by equating canalization with redundancy, providing a measure of effective connectivity based on dynamical redundancy, and further showing that this measure very accurately predicts the dynamical regime of biochemical networks.
Beyond the biochemical models we tested, because automata networks are canonical examples of complex systems, the work suggests that redundancy and canalization should be important design principles of resilient and evolvable organizations.
You can read the article following the links in reference:
Manicka Santosh, Marques-Pita Manuel and Rocha Luis M. [2022]. "Effective connectivity determines the critical dynamics of biochemical networks." J. R. Soc. Interface. 19(186):20210659. doi: 10.1098/rsif.2021.0659.
Labels: #Biology, #Complexity, #ComplexNetworks, #ComplexSystems, #Evolution, #Resilience, #Robustness, #Science
2022-01-10
Also Sprach the Jam
Labels: #Disco, #DJ, #Eurodisco, #Funk, #Jazz, #Music, #Techno
2022-01-01
Hey City Zen 2021
Top 40 Albums of 2021
Grouped alphabetically in 5 groups below.Diamond Cut
Platinum Set
Gorgon City – Olympia
Halsey – If I can’t have love, I want power
Jungle – Loving in Stereo
Little Simz – Sometimes I Might be Introvert
Silk Sonic (Bruno Mars and Anderson.Paak) – An evening with Silk Sonic
Gold Circle
Claptone – Closer
Flight Facilities – FOREVER
Floating Points, Pharoah Sanders & the London Symphony Orchestra – Promises
Parcels – Day/Night
Prince – Welcome 2 America
Rhye – Home
Scrimshire – Nothing feels like everything
Sleaford Mods – Spare Ribs
St. Vincent – Daddy’s Home
Silver Line
Booka Shade – Both
Bo Burnham – Inside (the Songs)
Turnstile – Glow On
Bronze Medal
Nick Cave & Warren Ellis – Carnage
Olivia Rodrigo – Sour
Towa Tei – LP
Best Collections and Box Sets of 2021
Aretha Franklin - Aretha 4CD box set
Rita Lee & Roberto – Classic Remix Vols. I, II, III
Various Artists – Rusty Egan Presents Blitzed
Various Artists – Italians Do It Better
Best Live Albums of 2021
Still not enough live shows, so these albums kept that feeling alive:Madonna – Madame X (Music From the Theater Xperience)
Rosa Passos – Live in Copenhagen
Amy Winehouse – At the BBC
Best EPs of 2021
Julien Doré – aimée encore (Album from last year, so taking new tracks as an EP)
Bellaire – Date at the Disco
Felipe Gordon – Keepin’ it Jazz
Jkriv and Peter Matson - Bigtime
Top 110 Tracks of 2021
Top 30 Remixes and Edits of 2021
Deichkind – Autonom (Dixon Edit)
Paul McCartney – Find my Way (Beck Reimagined Version)
Milk, The – The Great Sorrow (Scrimshire Remix)
Blu DeTiger – Vintage (Flight Facilities Remix)
Bob Dylan – Jokerman (Reggae Remix and Instrumental Dub by Doctor Dread)
Chromatics, The – Shadow (Maceo Plex Remix)
Gorgon City – Dreams (Totally Enormous Extinct Dinosaurs Remix)
Hot Streak – Body Work (Dr. Packer Remix)
Jungle Fire – Atómico (Felipe Gordon Remix)
London Grammar - Lord it’s a Feeling (High Contrast Remix)
Metronomy – Everything goes my way (Anna Prior Remix)
Morcheeba – You killed our love (BOYOCA Remix)
Polo & Pan Feat. Channel Tres – Tunnel (Tim Paris Remix)
Purple Disco Machine – Playbox (Alex Virgo Remix)
Rhye – Black Rain (Jayda G Remix)
Rolling Stones – Sympathy for the Devil (LUXXURY Pleased 2 Meet U Edit)
Sam Ruffillo – Danza Organica (Musumeci remix)
Stone Foundation feat. Paul Weller – Deeper Love (Opolopo Remix)
Labels: #2021, #BestOf, #Music
2021-06-07
Superdubying
Labels: #Dance, #DJ, #Drum&Bass, #Dub, #Reggae, #Techno
Burguesia do clickbait
2021-03-01
Lumière D'Amore
Labels: #DJ, #House, #ItaloDisco, #Music, #SpaceDisco
2021-02-18
O sexo dos anjos, ou como a complexidade das pandemias exige pensamento sistémico
Desde novembro de 2020 já morreram por Covid-19 quase 13000 pessoas em Portugal, sem contar com mortes indiretas devido à falta de atenção médica a outras doenças. É como se mais de 31 aviões Jumbo tivessem caído no nosso país. No meio da morte e devastação económica, é fácil esquecer que tudo isto se deve a um vírus 1000 vezes mais pequeno do que um cabelo humano que transitou de algum organismo para as nossas redes de alimentação, transporte, saúde, educação, economia, comunicação e governação. Já aqui escrevi que o estudo das redes que ligam rapidamente o mais ínfimo vírus à mais potente economia não tem recebido a atenção necessária no Mundo ocidental. Mas é importante perceber porque a resiliência e até a sobrevivência da nossa sociedade face a pandemias necessita de uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar e sistémica.
Um dos sucessos da ciência tem sido a sua capacidade de delimitar problemas a uma escala apropriada aos nossos limites cognitivos. Na prática isto é feito agregando os efeitos de níveis em que não estamos interessados, assumindo que são suficientemente constantes para ser ignorados−ou considerados como condições fronteira na linguagem da física. Por exemplo, um oncologista pode na prática ignorar efeitos quânticos quando estuda a transmissão de fatores genéticos ligados ao cancro entre gerações.
Muitos problemas podem de facto ser estudados bem dessa maneira, algo que Herbert Simon atribuiu a hierarquias naturais de organização que permitem que muitos problemas sejam na prática “quase-decomponíveis.” Uma nota para lembrar que Simon foi um dos casos notáveis de interdisciplinaridade, tendo recebido tanto um Nobel em Economia como o premio Turing em computação.
A ciência estuda a natureza e sociedade delimitando-as de acordo com os níveis em que as experienciamos. Disciplinas e departamentos universitários são assim organizados desde o estudo do mais pequeno, como a física de partículas e a biologia molecular, até ao estudo da biosfera e astrofísica, passando pelo estudo de sociedades inteiras, como na economia e sociologia. O problema é que os fenómenos verdadeiramente complexos escapam a essa assunção de organização hierárquica, como demonstra esta pandemia ao emaranhar tantos níveis: desde as interações moleculares que permitiram ao SARS-Cov-2 passar para humanos, até às redes de transporte, economia e saúde publica que foram alteradas por essa transmissão molecular. Pior ainda, o vírus continua a sua evolução por seleção natural, e quanto mais se propaga, mais evolui, o que quer dizer que o seu impacto não é constante.
Como cada
cientista é tipicamente treinado a lidar apenas com um nível, ignorando ou assumindo
a estabilidade dos outros, nenhum é um “especialista” na pandemia que mistura todos
os níveis dinamicamente. Esta complexidade está por trás de imensos problemas
revelados neste contexto. Como disse Theodosius Dobzhansky, “nada faz sentido em Biologia sem ser à luz
da evolução”. Mas até o epidemiologista chefe da Suécia e proponentes da declaração
de Great Barrington
aparentemente a esqueceram. Ao proporem não controlar a propagação,
implicitamente assumiram que a transmissibilidade e letalidade do vírus se
manteria constante, esquecendo que este evolui tanto mais quanto maior for a população de pessoas
por infetar. Infelizmente
as novas variantes demonstram o perigo dessa evolução, tornando medidas anteriormente eficazes (como
confinamentos mais leves ou máscaras sociais) insuficientes
para não ultrapassar a capacidade dos sistemas de saúde antes das vacinas
começarem a fazer efeito (Figura
1).
![]() |
Esquema conceptual da corrida entre vacinas e variantes mais infeciosas. Já não se trata de achatar a curva mas de ganhar tempo. Com as novas variantes, medidas de contenção anteriormente eficazes não chegam. Imagem retirada com permissão de: Petersen, M.B., et al. 2021. “Communicate Hope to Motivate Action Against Highly Infectious Sars-cov-2 Variants.” PsyArXiv. February 9. doi:10.31234/osf.io/gxcyn.
Também muitos economistas tentam separar o fenómeno epidemiológico do impacto económico e social que medidas de saúde publica têm na população. Tratando em separado estes problemas, parece-lhes óbvio que minimizar as mortes por via de confinamento poderá sair caro demais para os mais pobres. O problema é que quando a propagação fica descontrolada, a mortalidade e desolação são tais que o impacto na economia é ainda maior, especialmente nos mais pobres. Veja-se a teimosia de não fechar as escolas após relaxamento no Natal, quando tantos países europeus fizeram o contrário. Só tornou muito pior tanto o número de mortos como a economia (e daí pior impacto nos mais pobres) porque agora temos de confinar agressivamente por mais tempo−já para não falar da reputação de Portugal que está agora no Top 5 de mortes per capita por covid (países com mais de 3 milhões de habitantes) .
Mas como se pode integrar
a perícia de especialistas, treinados em níveis individuais, para otimizar a
resposta à pandemia e obter sociedades mais resilientes? A resposta passa
certamente por incluir mais pensamento sistémico. Esta aproximação iniciada no Sec. XX por
cientistas como Alan Turing, John Von Neumann, Herbert Simon, Margaret Mead e
outros, baseia-se no estudo de sistemas complexos por equipas
interdisciplinares capazes de integrar o conhecimento de cada nível necessário
ao problema. A aproximação nasceu precisamente para resolver problemas
existenciais que nenhum cientista poderia resolver sozinho, como o Manhattan Project e a decifração das máquinas Lorenz e Enigma da Alemanha
Nazi pelas equipas interdisciplinares de Bletchley Park. A metodologia tem sido extremamente produtiva
desde a sua aplicação na Economia (de Herbert Simon a Elinor Olstrom) até aos melhores modelos de previsão da pandemia de
COVID19 da atualidade.
Para formar estas
equipas é essencial treinar cientistas que sejam 1) “bilingues” em modelos
computacionais e noutra área científica especifica e 2) preparados a trabalhar
em equipas interdisciplinares. Há mais de 15 anos que dirijo um programa
doutoral nos EUA – patrocinado por um grande projeto da National
Science Foundation – para treinar este tipo de especialista. Cada aluno sai
com um duplo doutoramento em sistemas complexos e numa área de foco, desde a
física e biologia, à economia, sociologia e até a história da arte. Vários
programas semelhantes existem pelo Mundo fora, produzindo uma nova geração de
cientista e académico capaz de atravessar os níveis naturais e sociais
envolvidos em problemas complexos.
A existência
destes feedbacks entre níveis que não são separáveis é precisamente o
que define um sistema complexo como a pandemia. Para a resolver é necessário sair de caixas disciplinares e adotar pensamento sistémico. Mais do que
“especialistas” ouvidos individualmente em cacofonia, precisamos de equipas verdadeiramente
interdisciplinares que consigam atacar a pandemia em todo o seu complexo
de níveis interligados. Não é
difícil identificar quando um problema trespassa níveis e não pode ser
resolvido apenas com conceitos usados nesse nível. Por exemplo, os problemas
causados pelo fecho das escolas ou dos restaurantes no confinamento podem ser
quase totalmente resolvidos com mais dinheiro, mas a propagação da pandemia
não. Também não pode ser resolvida só pela virologia, mesmo com as vacinas.
Necessita, entre outras coisas, de alteração e regulação de comportamentos,
incluindo restrições temporárias de direitos civis.
Ficou recentemente em voga defender que não se pode deixar a ciência “colonizar” a política na resposta à pandemia. No Twitter, Susana Peralta disse-me “O confinamento não é ‘necessário’. É uma escolha política. Tem vantagens e desvantagens. Pesá-los é do domínio da política. Nós, os técnicos/académicos, devemos alertar para as consequências de cada opção política nas nossas áreas. Ao governo e só ao governo compete decidir”. Isto é, a Ciência é vista como separada da governação e as suas disciplinas consideradas como variáveis independentes. Mas os países que melhor protegeram os seus cidadãos e economia da pandemia não o fizeram a ler Max Weber, nem levantar bandeiras ideológicas leva o vírus a mudar de comportamento. Finalmente percebo aquela história dos cidadãos de Constantinopla a discutir o sexo dos anjos com o exército Otomano à porta. Tal como os romanos bizantinos, grande parte da opinião está em negação face à realidade complexa da pandemia. A nossa realidade não está em curso estável para que possamos considerar cada um dos seus níveis separadamente; a pandemia é como uma singularidade que os mistura a todos.
Veja-se por
exemplo como a comissão nacional de proteção de dados deu um golpe mortal na
aplicação de rastreio Stay Away Covid, ao deificar a privacidade como um
valor absoluto separado do seu impacto na saúde publica e economia. Especificamente,
exigiu que apenas médicos possam entrar
códigos de casos positivos na aplicação, o que tornou a aplicação inútil. Mas aplicações como esta são componentes
essenciais da aproximação sistémica das democracias da Ásia-Pacifico que controlaram
a pandemia−incluindo países tão pobres como o Butão. Seria bom quantificar quantas mortes e
desolação económica essa decisão da CNPD causou ao considerar a privacidade
separadamente do contexto da pandemia.
Não podemos continuar a
tratar a pandemia com especialistas separados por disciplina, nem tampouco focar
exclusivamente na elevação de ideais políticos como se eles pudessem sobreviver
separadamente se a pandemia continuar a evoluir descontroladamente por anos.
Não está de todo fora das possibilidades este vírus−ou outro num futuro
próximo−evoluir para algo que pode aniquilar a civilização−altura em que a
democracia será tão relevante quanto o sexo dos anjos.
Labels: #ComplexSystems, #Covid19, #Interdisciplinarity













